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sábado, 18 de junho de 2011

O preço e a recompensa




É sabido que dou aulas, individuais, de criatividade, isso mesmo criatividade. Para constar nas nomenclaturas das coisas é intitulado como redação. Não vejo como matéria de currículo acadêmico, e sim como arte. Tanto é que não me apego muito a regras, falo uma vez, e depois essas têm que vir com a criação. Não sei como consegui, aliás sei . Sempre fui uma professora estupidamente atípica, nunca consegui seguir o plano de aula. Ensino, ou melhor, transfiro conhecimento numa eterna dialética, é uma luta de saberes, apanho e dou porrada o tempo todo. Tem dado certo, entre os horários não cabe mais um suspirar, uma lista enorme de “alunos’ querendo uma vaga e até hoje não fui processada por minha eloquência ou transgressão de regras.

Este semestre realizei um sonho que parecia meio utópico, confesso o automenosprezo, mas o tal do boca a boca calou a minha. Virei referência na área. Sonho realizado!

E como nenhuma realização de sonho acontece impunemente, comigo não seria diferente.

Hoje ao final de um semestre ( acabaram os vestibulares ) acordei e dei de cara comigo, sem nenhuma obrigação, sem horários, temas, letras, borrachas coloridas ( amo ) e urgências. Um lado explodia de alegria enquanto o outro uma exaustão denunciada pelos olhos e as unhas por fazer.

Como sempre ( espero que mude o cigarro), café, música, cigarro e uma fresta de sol para esquentar o corpo recém acordado, pensei em todas as vezes que julgaram-me mercenária, viciada em trabalho, fugitiva da viva social dos bares e boates da vida, egoísta....

-Já pensou em procurar um psiquiatra? – ouvi

- Valha-me! Tenho um que além de psiquiatra é amigo, e não sei se pelo doutorado ou pela amizade fala que eu não tenho nada, além da insanidade.

Mas confesso a dedicação extrema, chega a ser bonito de se ver. Mas abri mão de algumas coisas sim, não me arrependo. O que tem que ser será!!!!!

Hoje foi dia de olhar no espelho e ver. Por favor, não basta só olhar!

Larguei o café, apaguei o cigarro, aumentei o som e experimentei um vestido lindo que nunca usei e para sensação ser melhor ainda, constatei que emagreci, ensaiei penteados e nenhum deu certo, olhei a caixa de esmaltes ( outro vicio) escolhi o vermelho mais intenso, abracei a Margarida ( minha cachorrinha), abri minhas cortinas colorida, acendi outro cigarro, agradeci com o olhar os meus santos que moram em um relicário lindo que tenho, liguei para o salão, mandei sms para os amigos que viajaram, respondi os inbox do facebook, comi um pedaço de pizza gelada, desliguei a impressora, passei batom, liguei para irmã e saí.

Cheguei no salão e parafraseei Mercedes ( personagem de Martha Medeiros, O Divã) :

- Repicaaaaa! Repicaaaaaaaa!

- Mas você não quer deixar o cabelo crescer? Se eu repicar vai ficar curto.

- Muda, repicaaaaaa que fique curto, mas bonito. E nas mãos esse vermelho, nos pés o branquinho de sempre! Aceito cappucino!

Voltei para casa, CASA....

- Nova moradora? Brincou o porteiro amigo.

- Pois olhe, é sim.

- Hoje tem alunos e para mandar subir? Perguntou.

- Não, e se tivesse eu não estaria, tiramos férias da gente.

O cabelo ficou um pouco curto, mas lindo. As unhas belas e os pés descalços , só que na euforia a Margarida pisou na unha recém feita, pensei em gritar e lembrei que ela também trabalhou muito nesses últimos dias, assistia a todas aulas e acreditem, que ao cumprir os 90 minutos ( tempo da aula) ela latia, virou a sirene da escolinha. Os meninos até diziam que eu tinha treinado, sempre recebiam uma resposta ácida:

- Me respeita, eu mal consigo ter hora para dormir ou ficar bêbada, vou treinar a Guida para ser sirene? Ahhhhhhhhhh

- Então, como ela sabe que a aula vai acabar?

- Pergunta para ela, só tenho medo que me cobre salário.

Pedi cerveja ( hoje mereço lamber o chão), confirmei presença na festa da minha sobrinha ( filha de uma de minhas melhores amigas) que vai fazer 9 meses e eu só a vi até o terceiro. Tirei a roupa, aumentei o som, Frejat por favor, nada de Chico, Vinícius, Clarice ou seja lá o que for, minha alma quer festa! Sentei na mesa que dou aula que em 3 segundos transformei em bar, quando lá pelo segundo gole percebo que tem um homem arrumando a antena do prédio em frente e observando uma mulher só de calcinha e sorriso largo bebendo cerveja. Tive vontade de gritar, mas não, coloquei roupa, ele deveria estar realizando algum sonho também.


Bal 2!